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terça-feira, 7 de junho de 2011

Estudo e prazer (Kodama)

KODAMA, Marcia Kazue. Tocando com concentração e emoção. São Paulo:
Editora Som, 2008.
4
ESTUDO E PRAZER
Muitas vezes sentamos para estudar e não conseguimos nos concentrar.
Por mais que tentemos prestar atenção, o pensamento vai de um lado ao outro
e apenas ocasionalmente a atenção fica voltada ao nosso estudo.
Muitos fatores nos dificultam a atenção, como o barulho, uma preocupação,
o estudo chato e maçante, e até mesmo uma alegria.
Todos nós sabemos que é muito mais difícil nos concentrarmos nas
músicas das quais não gostamos. Aliás, muitas vezes, o estudo dessas peças
é evitado ao máximo; enquanto que as músicas que gostamos, geralmente
estudamos mais concentrados, durante muito mais tempo e, às vezes, as
estudamos mesmo contrariando as recomendações do professor em não tocálas.
Quem já não ouviu aquela velha expressão popular “É só elogiar...” Por que
muitas vezes não conseguimos repetir um feito depois de um elogio? Existem
duas possibilidades: a primeira seria que, ao ser elogiada, a pessoa se
emociona e o seu pensamento se volta à sua alegria e não mais para a
atividade na qual estava concentrada. Por outro lado, com o elogio, o indivíduo
pode sentir uma obrigação de repetir o feito, e essa pressão pode resultar em
ansiedade e preocupação.
As funções automáticas e involuntárias do tálamo (responsável pelo
direcionamento da atenção) – assim como das outras regiões basais do
encéfalo – têm como objetivo a garantia da nossa sobrevivência. Essa
sobrevivência coincide com o trabalho de reduzir os estados desagradáveis do
corpo e atingir um funcionamento equilibrado do organismo, tentando evitar a
dor e procurar o prazer. Desta forma, a atenção se dirige automaticamente a
esses sinais, mas isso não significa que não tenhamos nenhum controle da
atenção. Apesar das atividades talâmicas serem involuntárias, o tálamo está
diretamente ligado a todas as regiões do córtex cerebral, inclusive ao lobo
frontal (a região responsável pelas decisões conscientes) e, portanto, nós
temos um certo controle da atenção. Mas quando o corpo apresenta um sinal
de dor, desconforto ou uma emoção, esses sentimentos passam do segundo
para o primeiro plano. Por esse motivo é difícil manter a concentração quando
a música não agrada pois, não existindo o prazer em tocá-la, qualquer outro
fator que gere um prazer ou uma tensão, facilmente dispersará a atenção.
No caso do elogio o que acontece é o seguinte:
1) Se a pessoa sente alegria ao ser elogiada, o pensamento
automaticamente se dirige a essa alegria – por esta lhe proporcionar um
prazer – e não mais à atividade a qual estava concentrada;
2) Quando o elogio se torna uma pressão e portanto uma tensão, ocorre
uma alteração no corpo (esse processo será explicado mais adiante), e
consequentemente a mente se preocupará em tratar essa alteração
desagradável ao invés de se preocupar com a atividade que está sendo
exercida.
Conclusão: se a consciência está condicionada a focalizar estímulos que
geram prazer, a solução para poder estudar sem se distrair facilmente consiste
em estudar de uma forma prazerosa. Mas como seria essa forma prazerosa de
estudar? Seria tocar a música sem nenhum tipo de sacrifício, “curtindo” a
música “sem esquentar a cabeça?”
Existem muitas maneiras de estudar sentindo prazer; e tocar “sem
esquentar a cabeça” é uma delas. Mas se tocarmos apenas “curtindo” a
música, sem trabalhá-la, com o tempo isso perderá a graça, pois não haverá
uma evolução, só a mesmice; por isso, tocar “curtindo numa boa”, é bom e
necessário, pois desenvolve a espontaneidade musical. Mas se só isso for
feito, o tocar se tornará cansativo, enjoativo e sem graça.
Todos nós sabemos que para tocar bem é preciso praticar, repetir, se
esforçar para prestar atenção, fazer exercícios. A princípio, essa maneira de
estudar parece não gerar prazer além de parecer cansativa, mas isto não é a
realidade.
Da mesma forma que a não evolução torna algo atraente em algo
cansativo, a evolução torna uma atividade cansativa em uma atividade
atraente, ou seja, estudar repetindo trecho, fazendo exercícios, analisando
tocando devagar, prestando atenção, entre outras formas consideradas chatas
que em si não geram prazer, podem gerar grandes prazeres quando essas
atividades proporcionarem um progresso, um novo conhecimento, um feito, um
aprimoramento, uma nova aptidão e principalmente a conquista de um objetivo.
Essa forma de estudo tem a aparência de ser maçante, mas é muito menos
cansativa do que aparenta. O mais importante é que ela nos traz um outro tipo
de prazer, pois o sistema nervoso do ser humano não tem apenas o sistema
límbico, muito pelo contrário, a maior parte dos neurônios se localiza no córtex
cerebral, ou seja, no cérebro pensante. Não podemos esquecer que não temos
apenas o prazer sentimental, mas temos a capacidade de sentir também o
prazer intelectual. As descobertas, o entendimento, a aprendizagem e o
raciocínio também geram um grande prazer, e essa forma de estudo pode
proporcionar o prazer intelectual.

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